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Acordo de Paris: o papel do setor de base florestal

30/09/2016

Setembro/2016

Presenciamos a história acontecer todos os dias, embora muitas vezes só nos daremos contas disso no futuro. Em setembro, o Brasil deu um passo importante para contribuir com a mitigação das mudanças climáticas. O país, terceiro maior grande emissor de carbono, ratificou o documento, que no ano passado, já havia sido aprovado por 197 países que participaram da Conferência do Clima de Paris (COP 21). O compromisso dos países signatários é manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais, e fazer um esforço para ir além: limitar essa elevação da temperatura a 1,5°C.

Mas como o setor de base florestal, incluindo a indústria madeireira, pode contribuir para que o Brasil cumpra a sua parte? Com 7,8 milhões de hectares de plantios florestais, o setor já é responsável pelo estoque de cerca de 1,7 bilhão de tonelada de carbono. É este setor, que dá origem à matéria-prima para as nossas indústrias, que contribui para a proteção direta das florestas e ecossistemas através de Reserva Legal (RL), Áreas de Proteção Permanente (APP) e Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN); regula o clima, melhora a qualidade do ar; conserva recursos hídricos, protege o solo contra erosão; conserva a fauna silvestre; reduz o impacto sobre as florestas nativas através das florestas plantadas; reduz o desmatamento ilegal e é fonte de biodiversidade e biotecnologia. 

Ainda no que diz respeito à base florestal, um tema que deveria estar melhor mais bem posicionado no radar das prioridades do governo brasileiro, são as concessões florestais, pois segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), elas têm potencial para trazer benefícios econômicos, sociais e ambientais à sociedade como um todo. Ainda de acordo com a FAO, as concessões são importantes ferramentas de governança para o aproveitamento e manejo das florestas públicas em muitos países tropicais. 

Entre os compromissos assumidos pelo Brasil estão o de reduzir, até 2025, 37,5% das emissões em comparação aos dados de 2005, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, promover o uso de bioenergia sustentável e alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na matriz energética até 2030. Para tanto, serão necessárias políticas públicas e planejamento a médio e longos prazos. 

Incentivos para o setor produtivo investir no uso de energias limpas podem ser uma das formas para cumprir parte das metas. Vale ressaltar que boa parte da indústria madeireira já processa seus resíduos na geração de energia, além da geração por meio de pequenas centrais hidroelétricas, que tem de se desenvolvido de forma importante no Brasil. 

Outro tema que precisa ser incluído na agenda pública diz respeito à forma como estamos construindo as cidades. Pesquisas e teses de doutorados revelam que o uso da madeira plantada na construção civil pode ser uma ótima estratégia para mitigar a emissão de CO². Os estudos mostram que se fosse duplicada a quantidade do que é construído hoje utilizando a madeira de floresta plantada, seria possível diminuir entre 13 e 22% a emissão do gás carbônico. Mais um motivo pelo qual o setor madeireiro, que tem colocado em prática uma série de ações capitaneadas pela Abimci, defende a consolidação do sistema construtivo wood frame no Brasil, principalmente as tentativas de quebramos alguns paradigmas culturais e políticos em relação a esse método construtivo inovador e sustentável de casas de madeira. Muitos países já estão atentos a isso. É o caso de Alemanha, França, Japão e Rússia, que vêm incentivando o emprego da madeira por questões ambientais, como a mitigação das emissões de CO² e diminuição do consumo de energia na construção civil. 

O Brasil vive um momento de despertar para o tema sustentabilidade. Ainda há muito discurso e poucas ações práticas quando se trata de um planejamento macro, que inclua o poder público. Por parte da iniciativa privada, porém, a necessidade de manter custos enxutos (por conta do custo-Brasil), a responsabilidade com o ambiente e as pessoas envolvidas com os negócios e, no caso do setor madeireiro, o respeito com a sua fonte essencial que é a floresta, já fazem parte da rotina e dos ideais de sustentabilidade das empresas.

O país pode sim ser uma referência para o mundo dentro do Acordo de Paris. O setor produtivo, em especial o setor de base florestal já está fazendo sua parte em várias ações e está preparado para contribuir com todo esse processo. Precisamos para isso planejamento, trabalho sério e ação prática por partes dos governantes. Caso contrário, viraremos atletas de reuniões e de discussões intermináveis!

 

Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)