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Comércio internacional exige cautela

31/03/2018

Março/2018

O comércio mundial vive dias de tensão e de atenção. As incertezas em relação ao posicionamento do governo dos Estados Unidos quanto às taxações para importações de produtos como o aço e o alumínio deixam, por um lado, o país exposto a possíveis retaliações, mas mostra que as questões comerciais e bilaterais entre países estão sensíveis e são mais importantes do que nunca. As relações internacionais são pauta prioritária para governos e empresas.

Quando falamos de produtos de madeira e, em especial do mercado americano, podemos dizer que o setor madeireiro brasileiro teoricamente não se encontra em rota de colisão com a política comercial americana. No entanto, aguardamos com atenção o desenrolar das ações, e em especial as possíveis mudanças do Sistema Geral de Preferência dos (SGP) dos EUA, programa que concede, para alguns produtos madeireiros, redução parcial ou total de imposto de importação. O programa encontra-se suspenso desde o início do ano, aguardando a votação pelo Congresso americano para a sua renovação.

Decisões macros como do SGP ou de acordos bilaterais entre países com economia e consumo interno forte, interferem de forma direta em toda a dinâmica do comércio mundial. Além disso, as negociações em curso do NAFTA, entre EUA – Canadá – México, também podem trazer alterações importantes em relação à madeira serrada e vários outros produtos madeireiros.

Todas essas mudanças no comércio internacional acenderam um sinal de alerta até dentro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que sugeriu cautela aos países, lembrando que há outros riscos ao comércio global, além dos novos posicionamentos dos norte-americanos. Entre as incertezas apontadas estão a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e a saída dos EUA da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). A preocupação também já faz parte do discurso da Organização Mundial do Comércio (OMC), que tem dado declarações reforçando que em qualquer guerra comercial não existem ganhadores. 

Diante desse cenário, o setor produtivo brasileiro avalia, no entanto, que podem surgir oportunidades. A expectativa é de que medidas protecionistas como as impostas pelo governo Trump, estimulem um posicionamento mais assertivo por parte do governo brasileiro na direção de estabelecer acordos comerciais que beneficiem as exportações para outros mercados, caso do Mercosul, do necessário acordo com a União Europeia e até mesmo uma aproximação com a Aliança do Pacífico (Chile, México, Colômbia e Peru). 

As indústrias de madeira do Brasil, por exemplo, por meio da representação da Abimci, têm atuado fortemente na tentativa de superar barreiras tarifarias e não tarifárias, e os desafios impostos para o comércio internacional, haja vista a representatividade que as exportações assumiram para os produtos de madeira fabricados no país. Nos últimos anos, as exportações nacionais de madeira se fortaleceram, fechando em 2017 com crescimento significativo nos volumes embarcados de alguns produtos, embora ainda sem que isso signifique aumento real no faturamento devido à variação de preços no mercado internacional, ao comportamento do câmbio e outros fatores. 

O monitoramento das decisões que afetam a economia mundial é apenas uma das frentes de atuação da Abimci. Como defensora dos interesses do setor, a entidade tem atuado também com o objetivo de ampliar as parcerias e os acordos técnicos de cooperação com os principais mercados compradores do produto nacional. É o caso, recente, das negociações, em fase avançada, para obter o reconhecimento do Programa Nacional de Qualidade da Madeira (PNQM) pelo Instituto Argentino de Normalização e Certificação (IRAM), que poderá garantir o acesso do compensado brasileiro àquele mercado, sem que para isso seja necessária outra certificação no destino. O mesmo já ocorre com os produtos destinados aos países da Comunidade Europeia, que reconhecem o PNQM para obtenção do selo CE Marking. Tal ação, além de um importante ganho comercial, fortalece institucionalmente a Abimci nas relações internacionais e, principalmente, garante acesso dos produtos nos principais mercados compradores. 

Assim, o certo é que, nesse momento de intensas mudanças e incertezas no comércio mundial, a atenção e o acesso a informações confiáveis serão indispensáveis para a tomada de decisões. A Abimci cumpre esse papel, abastecendo as empresas associadas com informações pontuais e assertivas, e representando o setor nos principais mercados importadores.  

 

Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)