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De costas para o mar!

30/04/2016

Abril/2016

Sabemos que estamos em um beco (quase) sem saída, calcados em dois grandes cenários: o da completa instabilidade e insegurança política, e os grotescos erros na escolha de modelos econômicos adotados pelo governo. Sabemos também que política e economia fragilizadas ao mesmo tempo não são boa coisa.

E para piorar esse momento espinhoso do País, quando avaliamos alguns cenários e políticas de comércio exterior promovidas pelo governo brasileiro, temos a sensação que estamos realmente de costas para o mar, na contramão dos acontecimentos mundiais.

A cada dia fica mais evidente essa nossa distância, pois praticamente não estamos participando dos inúmeros acordos comerciais internacionais e de fronteira que o mundo globalizado, com as suas nações e seus governos preocupados com a internacionalização de suas indústrias, estão promovendo a toque de caixa para aumento e garantia de sua competitividade internacional.

Se observarmos regiões comerciais e produtivas importantes ao redor do mundo, ações de facilitações de comércio exterior estão sendo prospectadas a todo momento, acordos de cooperação entre vários países estão sendo costurados.

Com a paralisia do nosso governo, o Brasil está saindo naturalmente e, infelizmente, de forma gradativa do radar comercial de vários dos principais países importadores do mundo, que estão migrando suas ações comerciais para terras onde enxergam maior segurança jurídica e que garantam seus investimentos. Se antes, em alguns países, já tínhamos atestado de pobreza comercial e de políticas públicas, de uns tempos para cá temos também a sensação de que estamos com atestado de dó por toda a situação interna que estamos enfrentando. E normalmente, países sérios, não fazem negócios com quem se tem dó.

A Abimci tem participado de várias atividades de comércio exterior, sejam missões comerciais ou de representação institucional, e em praticamente todas essas oportunidades os demais países participantes contemplam esses eventos com informações e apresentações comerciais concisas, com políticas claras de atração de investimentos e segurança jurídica, embasadas em números crescentes de PIB, balança comercial positiva e uma expressa vontade de seus governos, alinhados com o setor produtivo, em defender suas empresas. Que inveja!

Presenciamos nos últimos meses uma esperança dos exportadores, que, animados com a desvalorização do Real frente ao Dólar mais a queda abrupta do consumo interno, direcionaram uma parte importante de suas produções para o mercado internacional, mas que agora precisam ficar atentos, pois além do Brasil estar na contramão quando o assunto é acordo de livre-comércio, estamos também presenciando uma queda nos preços internacionais de vários produtos madeireiros que, somado ao aumento brutal do custo de produção nacional e mais recentemente uma queda acentuada e constante da cotação da moeda norte-americana, redobram a preocupação das empresas em relação à viabilidade de seus contratos internacionais.

Alguns dados da Confederação Nacional das Indústrias (CNI) mostram a situação de competitividade internacional que nos encontramos: a rede brasileira de acordos representa menos de 8% do acesso a outros mercados. O Brasil tem apenas 22 acordos preferenciais, a maioria pouco relevante. Dados da Organização Mundial do Comércio (ONU) revelam que em 2013, 543 acordos bilaterais ou regionais haviam sido realizados. Desses, 354 estavam em vigor e, pelo menos a metade, foi firmada a partir de 2003. 

Enquanto o Brasil perde o passo, nossos vizinhos estão fazendo o dever de casa. O Chile possui preferências tarifárias com 62 países. A Colômbia tem 60 mercados e, o Peru, 52. Todos eles têm acordos de livre comércio com Estados Unidos e União Europeia. Não à toa, Chile, Peru e Colômbia conquistaram bons resultados de crescimento econômico, diferente do que vem acontecendo por aqui. Resultado: o Brasil ficou para trás.   

No ano passado, ficamos de fora do mais moderno acordo de livre comércio mundial, a Parceria Transpacífico. Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Cingapura, Estados Unidos, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru e Vietnã certamente vão dar preferência para trocar mercadorias entre si. 

E mesmo após essa péssima notícia, agora o país assiste, inerte, às negociações entre Estados Unidos e União Europeia na chamada Parceria Transatlântica. Caso o acordo seja firmado e o Brasil não possua parcerias similares com esses países, o impacto negativo para a economia brasileira será significativo: 14 dos 21 principais setores industriais perderiam até 3% da produção, na hipótese das duas economias zerarem suas tarifas e reduzirem pela metade as barreiras não-tarifárias existentes entre si. Nesse mesmo cenário, o Brasil veria suas exportações caírem 5%. Vale lembrar ainda, que a falta de acordos preferenciais também reduz o acesso a tecnologia e inovação. 

Em resumo, estamos assistindo de forma passiva o mundo fazer aquilo que o nosso governo não faz: promover a marca Brasil e abrir portas para a riqueza que cada indústria produz por aqui. Sabemos que é dever do Estado trabalhar para que o produto brasileiro tenha melhor acesso ao mercado global e a negociação de acordos comerciais é essencial para isso, sendo, inclusive, um fator preponderante para a recuperação da competitividade da indústria brasileira.

Lembramos, ao cabo, que é papel do setor produtivo cobrar mais ações práticas dos governos e atuar de maneira coordenada para que tenhamos nosso lugar no mercado internacional. Passadas as turbulências políticas, será preciso muito mais trabalho de todos para que a economia volte ao prumo e o Brasil não perca, mais uma vez, as oportunidades certas para desfrutar das benesses do comércio globalizado. Enquanto isso não acontece, estaremos de costas para o mar. Tomara que a maré não suba muito rápido…

 

Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)