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Está ocorrendo excesso de oferta de madeira no mundo?

30/11/2019

Novembro/2019

Com o recém-lançado estudo setorial da Abimci 2019, documento que além de atualizar o setor de base florestal brasileiro em vários cenários e direções também contempla cenários macros mundiais de produção e consumo dos principais produtos madeireiros, podemos ver consolidações de volumes de produção de diferentes produtos ao redor do mundo ganhando corpo e conquistando fatias de mercado onde anteriormente não entravam.

Esse cenário macro também passa pela avaliação e influência das tendências do mercado mundial de toras, com políticas de importações por grandes países produtores bem consolidadas como a China, entre outros. Também passamos por um fato florestal não muito comum: a oferta extra de toras provenientes do norte da Europa, em especial da Alemanha, que está realizando cortes rasos em áreas florestais a fim de prevenir a expansão da infestação de besouros. Esse fato provocou aumento na oferta de madeira em vários países consumidores e alterou a relação do preço de alguns produtos processados.

As infinitas variáveis que temos no comércio mundial de madeira está nos mostrando um ambiente de difícil explicação precisa desse ou daquele produto. Isso nos remete a uma dúvida ou sensação de incômodo, que tem se tornado cada vez mais constante em diversos fóruns que a Abimci promove e participa: Está sobrando madeira ou oferta de madeira no mundo?

Talvez não seja essa a afirmação correta, mas certamente estamos enfrentando novos tempos na dinâmica do mercado e na mais antiga relação balizadora do mercado: a lei da oferta x demanda, a qual podemos acrescentar alguns outros ingredientes como capacidade de pronta entrega, origem legal da madeira e qualidade do produto.

Aliado a isso, os recentes anúncios de taxações impostas pelos Estados Unidos a produtos chineses e vice-versa, somados às incertezas de alguns novos acordos em blocos que estão sendo desenvolvidos como o acordo comercial entre Mercado Europeu e o Mercosul, alguns impasses existentes nas negociações em curso entre México, Canadá e Estados Unidos, entre outros,  mostram que a guerra fiscal no mercado internacional está longe de ser passageira e que certamente está afetando a parte comercial do produtos madeireiros.

De olho na eleição de 2020, o protecionismo do governo americano deve continuar, pois precisa buscar formas de garantir o desenvolvimento econômico e os empregos. Essas premissas devem balizar o comportamento comercial daquele país.

Vários dos principais mercados importadores mundiais de madeira estão inseguros com todas essas variáveis e estão revisando suas políticas de compras, bem como suas políticas de estoques físicos disponíveis ao mercado.

A Abimci está realizando uma intensa agenda de distribuição do Estudo Setorial, participando de vários eventos nacionais e internacionais, mantendo contado direto com importadores do produto madeireiro brasileiro. Essas ações nos mostram que uma mudança da dinâmica mundial do mercado de produtos madeireiros está ocorrendo, trazendo novos desafios.

Diante de um cenário internacional tão incerto não somente nos principais países importadores e consumidores de madeira, mas também nas crises políticas e institucionais em países vizinhos como Argentina e Chile, é preciso cautela e estar preparado – comercial e tecnicamente – para atuar no mercado internacional.

Mercado interno: possibilidade de crescimento

Se no mercado global os desafios são muitos e, cada vez mais, vão afetar as nossas empresas, no mercado interno tivemos, recentemente, um avanço importante para a indústria da madeira. O envio para consulta nacional do texto da norma técnica para o sistema construtivo wood frame é um grande passo para que, em breve, tenhamos um novo nicho para as empresas atuarem. A expectativa, com a oficialização desse novo sistema construtivo no Brasil, é de aumentar o consumo per capita de madeira no mercado interno, principalmente, em virtude da crescente demanda habitacional brasileira.

Também alguns cenários da recuperação macro da nossa economia, a consolidação de algumas reformas estruturantes para o país, a tendência da recuperação do PIB está produzindo ventos mais positivos entre os empresários, o que nos remete a uma esperança maior da retomada do consumo interno, em especial na construção civil, principal mercado para os produtos madeireiros.

Assim, a despeito de toda a influência das negociações mundiais, é preciso saber navegar por entre os momentos de instabilidade e bonança e estar atento às oportunidades do mercado interno.

 

Paulo Roberto Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)