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Indústria da madeira, um setor pujante em alerta

31/08/2017

Agosto/2017

Quando avaliamos somente os números macros do setor madeireiro, por muitas vezes os mesmos não nos revelam algumas informações importantes da rotina das empresas. O resumo das exportações brasileiras de produtos de madeira no primeiro semestre de 2017 compilados pela Abimci nos dá mostras claras que uma avalição sempre cuidadosa e mais profunda se faz necessária em todos os momentos, quando se avalia e se questiona o mercado, em especial, o externo.

Ao olharmos os resultados obtidos nos primeiros seis meses do ano, comparados com o mesmo período em 2016, vemos uma boa recuperação e aumento do volume exportado na maioria dos produtos madeireiros, mas isso não se reflete no valor faturado pelas empresas. A Abimci inclusive salienta que apesar desse aumento do volume exportado, a média de faturamento não aumentou na mesma proporção no período, mostrando sinais de que os preços internacionais estão estáveis e em alguns casos sofreram queda.

Esse aumento do volume exportado também pode ser explicado pela migração constante de produtos do mercado interno para o externo, muito em decorrência da situação da demanda desaquecida da economia nacional. Essa migração vem acontecendo na maioria dos produtos madeireiros exportados pelo país, desde 2015, com tendência mais acentuada do segundo semestre de 2016 para cá.

E isso é um reflexo claro da baixa demanda no mercado doméstico e da demora da recuperação de nossa economia. Em resumo, não temos ainda muitos motivos para comemorar, e sim manter a cautela e olhar constante sobre as transformações do mercado, trabalhar no planejamento constante e de cada dia tentar ser mais competitivo dentro da gestão nas empresas.

Seria possível listar aqui uma série de outros fatores que contribuem para o momento de atenção: da perda de competitividade diante de outros países, a falta de acordos comerciais, passando pela incerteza econômica e a insegurança jurídica do país que influenciam diretamente no volume de negócios, somadas ainda a questões como custos operacionais e a enorme e inconsequente burocracia para se colocar, embarcar e receber um produto via nossos portos.

Mas apesar das dificuldades enfrentadas com a crise interna e mudanças no mercado mundial de madeira, a indústria brasileira está se desenvolvendo de forma competente e consolidada, nos principais mercados do mundo. Estamos novamente em uma posição de destaque em alguns mercados importantes, e inclusive, vitórias significativas como a obtida recentemente em ação liderada pela Abimci junto ao governo dos Estados Unidos que pediu a revisão da isenção fiscal para a madeira perfilada de coníferas (HTSUS 4409.10.05) dentro do Sistema Geral de Preferência (SGP) dos EUA. Garantimos a comercialização desse produto para o mercado americano sem a incidência de imposto de importação por mais cinco anos.

 

Na outra ponta, quando avaliamos alguns indicadores socioeconômicos do setor, nos deparamos com números estáveis de mão de obra contratada, (somos um setor intensivo em mão de obra e muito dependente, diante do baixo nível de tecnologia e automação do setor) que mostra a exposição de muitas empresas, com alto custo operacional para suas unidades. Quando falamos de participação do setor na balança comercial do Brasil, somos responsáveis por uma boa fatia do lado positivo da nossa economia, mas, infelizmente continuamos a ser tratados pelo Governo Federal, e em praticamente todos os governos estaduais, como o patinho feio do setor produtivo e ambiental. Certamente visão equivocada e tendenciosa por quem está no poder.

Assim, em um momento no qual precisamos estar mais unidos e fortalecidos, vale lembrar que cada empresa do setor tem o desafio e papel primordial para fazer com que o setor avance e consiga terminar o ano com o sentimento de que é possível encontrarmos novos caminhos.  Somos um setor pujante com geração de emprego e renda em um grande número de municípios do país. Onde as indústrias de madeira se instalam, principalmente em localidades menores, levam prosperidade econômica e o envolvimento de toda uma cadeia que começa antes mesmo do plantio florestal, com o trabalho de pesquisa e desenvolvimento de insumos, além de contribuir para o equilíbrio social no meio em que atua. 

Certamente não teremos um segundo semestre fácil. As incertezas ainda são muitas. Será preciso trabalhar mais, planejar melhor e pensar fora da caixa. Prospectar novos mercados, encontrar outros usos para os produtos, desenvolver e melhorar aquilo que já fazemos.

 

Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)