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Madeira, pandemia e expectativas

05/05/2021

Maio/2020

Desde o início da pandemia do corona vírus no mês de março, perguntamo-nos diariamente sobre o futuro. Quais os reais impactos que virão, quais as perspectivas em que podemos nos balizar, como ficará a relação entre mercado e consumo? Infelizmente, imprevisibilidade é a palavra que define o que estamos vivendo.

O governo adotou algumas medidas apara tentar amenizar os impactos econômicos desse momento no setor produtivo, como a possibilidade de redução da jornada de trabalho e de salários, algumas pequenas prorrogações para recolhimento de encargos, e uma campanha de acesso ao crédito (para sobrevivência de muitos). No entanto, nem todas as medidas chegam à ponta da produção, em especial novas linhas de crédito, que ao contrário do que se esperava, ficaram mais caras e restritas. Ou seja, o setor financeiro e os bancos sendo mais bancos do que nunca!

Outra situação comum nos diálogos durante a crise é a comparação entre setores e como cada um deles é afetado pela atual crise. Isso também é impossível de definir um padrão, pois cada um tem suas particularidades, sazonalidades, regras de mercado, e sabemos que toda crise também gera oportunidades para alguns segmentos. Alguns setores são mais afetados que outros, alguns são menos expostos ao crédito, outros, dependentes inteiramente do consumo do mercado interno, e há aquele com um DNA mais exportador. São muitas as variáveis para que se possa comparar um segmento ao outro.

Na visão macro, quando comparamos o que tem acontecido no Brasil com alguns dos principais países do mundo em suas políticas de combate à pandemia e das estratégias para combater os efeitos da pandemia na economia, percebemos muitas diferenças de conceito e de apoio. Na grande maioria das democracias, percebe-se claramente uma trégua no embate político entre os partidos políticos dominantes. Pelo contrário, há uma união de todos para o enfrentamento dos problemas na área da Saúde e em especial uma união de forças para a recuperação da economia, da confiança da população e do consequente aumento do consumo. Quando isso for vencido, volta-se ao debate político, próprio e salutar em uma democracia.

Mas, infelizmente, o que estamos vivendo no Brasil é o oposto do espírito de união. A cada dia fica mais clara a divisão de forças, cada um com seus interesses, deixando o país mais distante de superar essa enorme e inesperada crise. 

A Abimci, como instituição nacional de defesa de interesses, atua em praticamente todo o Brasil, e encontrou dificuldades de atuação desde o início da pandemia nas três esferas de poderes existentes: federal, estadual e municipal, quanto à interpretação e cumprimento de regramentos, decretos e liminares. Em muitas situações, ficou clara a disputa de poderes nas três esferas. Cada uma criando suas próprias regras e receitas de como melhor enfrentar a situação, fato que gerou diferentes interpretações e dúvidas no setor produtivo.

E como o setor madeireiro está enfrentando tudo isso? Claramente os produtos destinados ao mercado interno estão enfrentando várias situações com a queda do consumo. A diminuição da produção já ocorreu, cancelamento de contratos e pedidos em carteira, pedidos de prorrogação de pagamentos. Com o crédito ainda mais restrito, as empresas estão avaliando mês a mês quais a decisões a serem tomadas. Exercício dos mais difíceis possível!

As exportações brasileiras da maioria dos produtos madeireiros, que vinha demonstrando um início de recuperação desde o início do ano, fecharam o primeiro trimestre com volumes médios embarcados dentro da expectativa, período no qual a pandemia não estava ainda tão acentuada. Vale ressaltar que o faturamento médio das exportações teve queda devido à natural queda de preços de alguns produtos frente à diminuição da demanda e consumo.

O desafio maior agora do setor exportador é tentar manter o suprimento no segundo trimestre do ano, mas a demanda depende muito de cada país de destino, dos prazos para o fim do isolamento social e das ações e programas internos de recuperação de suas economias. Essas questões também são imprevisíveis. Quem poderia imaginar, por exemplo, que os Estados Unidos, com todo o seu potencial e tamanho do mercado, ficaria tão exposto?

Os meses de maio e junho certamente serão decisivos. A indústria nacional madeireira está tentando se proteger economicamente da melhor forma possível. Todas as decisões plausíveis em suas atividades já foram tomadas: turnos reduzidos, férias coletivas, demissões, estoque regulador, adoção da MP federal, entre outras. 

Cabe-nos agora torcer para que a pandemia fique sob controle o mais rápido possível, que as ações oficiais sejam baseadas em critérios técnicos em prol do setor produtivo e da população para o restabelecimento básico da economia. E que os representantes da classe política, em especial aqueles com viés eleitoreiro e que tentam se aproveitar desse tipo de situação, fiquem o mais longe possível de qualquer decisão que possa prejudicar ainda mais o Brasil. 

Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)
www.abimci.com.br