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O abismo entre o setor produtivo e o mundo da corrupção

31/05/2017

Maio/2017

Com esse mar de cinismo e sarcasmo exibidos nas gravações das delações da operação Lava Jato, que escancarou de vez a corrupção endêmica instalada no Brasil, diminui a esperança de ainda podermos acreditar no atual sistema político partidário e de encontrar nos poderes Executivo e Legislativo algum representante preocupado com a situação do setor produtivo nacional. Representantes esses que, na sua grande maioria, se esquecem de suas bases eleitorais e não voltam às suas origens para perguntar como está o mundo real e, quem sabe, lembrar que o setor produtivo é o que paga a conta cara para o país continuar respirando.

É cada vez mais difícil acreditar que isso possa acontecer. A distância entre a dura realidade e rotina das empresas e o mundo do poder, das investigações e dos inconsequentes malabarismos que todos os envolvidos fazem para não serem surpreendidos, continua aumentando. Justamente agora, que as reformas urgentes e necessárias para o país deveriam ser pauta central e prioritária de todos, embasadas por discussões e avaliações balanceadas e ponderadas da sociedade. Infelizmente, estamos diante de uma cena nacional inundada por altas doses de horror clássico, ao vivo, em todas as mídias.

Presenciamos um abismo entre o mundo da corrupção e o mundo de quem produz com seriedade. A naturalidade com que os agentes da corrupção falam sofre as cifras astronômicas causam espanto e indignação entre as empresas que focam no trabalho comercial e de gestão árduos, com o objetivo de manter estáveis os seus faturamentos, classificando e dando créditos a clientes e assumindo de forma isolada e solitária riscos financeiros.

Os valores informados pelos delatores, com suas várias casas decimais, não cabem nas calculadoras de custos e de margens de lucro do setor produtivo. Essas calculadoras surradas e amplamente usadas em cálculos diários, depositadas em cima de mesas de quem gera emprego e recolhe impostos no país, certamente possuem capacidade de somar lucros muito menores do que esse “mundo encantado” da corrupção, onde tudo é viável, rápido e passível de ser feito.

Em meio a esse turbilhão e enquanto os governantes estiverem a serviço da corrupção, longe da agenda prioritária do setor industrial, estaremos sozinhos. Precisamos, assim, encontrar forças e determinação para nos organizar e atuar com estratégia para o desenvolvimento e sustentabilidade da cadeia de base florestal. 

É fato que vivemos um momento triste na história da democracia brasileira, de desconstrução da identidade do país. Por outro lado, uma oportunidade ímpar para que os setores público e privado aprendam com os erros e passem a encarar a “coisa pública” como deve ser: com respeito e seriedade. Acreditar que a justiça e as devidas punições serão cumpridas, pode ajudar na melhora da confiança da população, que anda fortemente abalada pela perda de esperança com as instituições de governo, o que certamente refletirá em aumento de consumo, melhorando o fluxo da economia. E assim, também, reacender o fio de esperança do setor produtivo. 

 

Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)