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O constante desafio logístico para a indústria da madeira

30/09/2017

Setembro/2017

Se olharmos para aquelas fotos antigas (já meio amareladas) de caminhões encalhados, carregados com madeira ou toras em estradas impossíveis de se transitar, mostrando toda a dificuldade de se transportar qualquer tipo de produto, temos a nítida impressão de que são cenas de épocas vividas décadas atrás, em especial nas regiões mais longínquas do país, e que não voltam mais.

Infelizmente isso não é somente passado. Esse tipo de situação acontece ainda de forma constante em várias regiões do país, só que atualmente essas fotos tradicionais e de memória do passado se transformaram em imagens de alta resolução, que mostram ao vivo e a cores, de forma constante pela TV, a incoerência e a falta de política pública e qualquer plano de ação para a melhora da malha rodoviária nacional.

Saindo das rodovias e indo paras as ferrovias, a situação não muda muito. Com uma malha ferroviária muito aquém da grandeza territorial e da necessidade do país, quando olhamos o percentual transportado por trem, comparando com vários dos países do mundo que concorrem diretamente conosco na produção de madeira, nossos índices são muito pequenos, e os serviços, além de escassos na maioria das regiões, muitas vezes são inoperantes ou de baixa efetividade.

E investimento na malha ferroviária é um dos maiores atrativos que muitos fundos internacionais olham com carinho para com o Brasil. Muitos deles vêm aqui, fazem estudos de viabilidade econômica e técnica, montam a engenharia financeira e de financiamento, calculam taxas de retorno dentro dos padrões internacionais e quando se espera que tudo se encaminhe para um desfecho feliz, vem à tona situação caótica na política e de insegurança jurídica pela qual passa o país, e que afugenta potenciais investidores tão essenciais para a melhoria da infraestrutura nacional.

Deixando de lado as rodovias e ferrovias, e indo para os portos, imaginamos que praticamente não temos problemas nessa modalidade logística. Engano! Temos problemas, e muitos.

Com custos gerais dos mais caros do mundo, com uma complexidade burocrática acima da média, e com vários órgãos de governo que seguidamente nos dão a sensação que não conversam entre si, tamanha a burocracia, gerando muitas vezes duplicidade de documentos e procedimentos, o que atrasa o processo e deixa ainda mais cara a operação.

Não bastasse o caminho oficial da burocracia nacional, que é difícil para qualquer empresa exportadora se adaptar e se manter atualizada, com frequência as empresas também recebem taxas extras, muitas vezes com valores absurdos, de serviços e operações portuárias diversas, em especial as que se referem ao não embarque de mercadorias, quando os exportadores são cobrados de forma direta pela inoperância do processo na área portuária. 

E são vários os motivos alegados. Um que se destaca é a cobrança de custos gerados por problemas chamados de força maior, como enchentes ou chuvas fortes que normalmente impedem alguns tipos de operação, e que, descaradamente, são transferidos aos exportadores. É como se cada vez que acontece algumproblema no processo de exportação ou um não embarque de mercadorias, os custos incidentes são imediatamente transferidos para o cliente. 

Se todos pudessem agir assim: ao detectar qualquer risco em meu negócio, passar a responsabilidade para o cliente… Doce utopia! Tente fazer isso com seu negócio e em breve você estará sem clientes.

Em resumo, estes são alguns dos cenários enfrentados atualmente com a logística nacional pelo setor madeireiro, e certamente por vários outros segmentos produtivos. Em um país com dimensões continentais como o Brasil, sabemos que o avanço da infraestrutura não é fácil, mas com boa vontade, gestão e foco orçamentário, aliado a uma boa estratégia e capacidade para atração de investimentos externos e parcerias público-privadas, a situação poderia ser amenizada.

Certamente as fotos antigas que temos, como as cenas de caminhões encalhados, são acervos importantes para mostrar as dificuldades e a história do desenvolvimento da indústria madeireira no Brasil. Mas as imagens produzidas hoje são arquivos digitais potentes e de alta definição, que mostram com nitidez a deficiência de nossa logística, comprometendo o desenvolvimentos dos setores produtivos e, com isso, do próprio país. 

 

Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci)